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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Suprema Corte dos EUA limita poderes de Trump sobre tarifas

A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos marcou um ponto crucial na relação entre Executivo e Legislativo em matéria de comércio internacional. Por uma votação de 6 a 3, o tribunal concluiu que o ex-presidente Donald Trump ultrapassou seus poderes ao impor tarifas globais abrangentes no ano passado. A controvérsia gira em torno do uso que Trump fez da Lei Internacional de Poderes Econômicos de Emergência (IEEPA), promulgada em 1977, que concede ao presidente autoridade para regulamentar o comércio em situações de emergência. Segundo a Suprema Corte, a IEEPA não pode ser utilizada para criar novos impostos sobre importações, uma prerrogativa que pertence exclusivamente ao Congresso. A decisão tem implicações diretas para as tarifas que Trump implementou globalmente, estimadas em aproximadamente US$ 130 bilhões em receita. Embora a Corte não tenha se posicionado sobre a possibilidade de reembolsos a consumidores e empresas afetadas, este é um cenário que certamente pode ger...

Quando o mar invade a torneira

Imagine a cena: alguém abre a torneira em Nova Orleans e, em vez de água doce, sente gosto de sal. Não é metáfora. É realidade. Agora, atravessemos o Atlântico. Em Bangladesh, agricultores convertem antigos arrozais em viveiros de camarão, porque a terra já não suporta mais o cultivo tradicional. Na Gâmbia, uma agricultora observa suas plantações murcharem sob o peso invisível do sal. Esses episódios, aparentemente desconectados, fazem parte de um mesmo processo geográfico: a intrusão salina. E aqui está o ponto central — não se trata de um desastre súbito, de um furacão que ocupa as manchetes por alguns dias. Trata-se de uma crise lenta, estrutural, silenciosa. Uma crise que reconfigura territórios, economias e modos de vida. O que é a intrusão de água salgada? A intrusão de água salgada ocorre quando a água do mar avança para dentro de aquíferos costeiros de água doce. Em termos simples, é o mar penetrando pelo subsolo. Isso acontece na interface entre água doce e água salgada, q...

Quando a foto mente (e sempre mentiu)

Vamos começar com uma pergunta incômoda, daquelas que fazem a gente largar o café na mesa: a fotografia já disse a verdade? Ou melhor — quando foi que nós decidimos que ela dizia? Vivemos um tempo em que a manipulação de imagens virou manchete. O controverso chatbot de IA de Elon Musk , o Grok, causou alvoroço ao ser usado para alterar imagens de pessoas, simulando nudez. Depois da reação pública, a função foi desativada para a maioria dos usuários, e a Comissão Europeia lançou investigação sobre o caso. Parece coisa de Black Mirror, não é? Mas calma lá. Antes de apontarmos o dedo para os algoritmos do século XXI, talvez devêssemos olhar para o século XIX. Porque, veja bem: a fotografia nunca foi esse espelho inocente da realidade que a gente imaginou. Desde os primórdios, ela já vinha com truque na manga. É exatamente isso que mostra a exposição Fake! As primeiras colagens de fotos e fotomontagens , do Rijksmuseum . Focando em imagens produzidas entre 1860 e 1940, a mostra desmont...

TikTok, cérebro e a anatomia do rastreamento

Se tem algo que aprendi ao longo de décadas estudando o cérebro humano é que não existe processamento de informação inocente. Todo dado coletado, toda sinapse ativada, todo padrão registrado serve a um propósito. No nosso cérebro biológico, isso significa adaptação e sobrevivência. No cérebro digital das grandes plataformas, significa poder, influência e lucro. Quando falamos do TikTok, muitos imaginam apenas um aplicativo de vídeos curtos, danças virais e tendências culturais efêmeras. É evidente que o aplicativo acompanha tudo o que você faz dentro dele — isso já não surpreende ninguém. O que permanece menos visível, contudo, é o quanto esse ecossistema digital se estende para além da própria plataforma, rastreando comportamentos em outros cantos da internet, inclusive em ambientes que nada têm a ver com entretenimento. E aqui começa a questão central: estamos diante de um sistema de coleta de dados que opera como uma rede neural distribuída, espalhada por milhares de sites, capa...

Milão-Cortina 2026: os Jogos, o Território e o Espetáculo

Quando os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 finalmente se iniciam, a Itália não apenas abre suas portas ao chamado “maior espetáculo da Terra”, como também expõe, de forma quase didática, as tensões entre geografia, política, economia e cultura que marcam os megaeventos esportivos do século XXI. À primeira vista, trata-se de uma celebração global: cerca de 2.900 atletas, oriundos de mais de 90 países, disputando medalhas sobre o gelo e a neve ao longo de 16 dias. Contudo, sob a superfície brilhante do espetáculo, revelam-se camadas profundas de disputas territoriais, escolhas estratégicas e dilemas contemporâneos. Antes de tudo, é preciso compreender a singularidade espacial desses Jogos. Diferentemente de edições anteriores, Milão-Cortina 2026 se espalha por centenas de quilômetros no norte da Itália, conectando territórios profundamente distintos entre si. De um lado, Milão, metrópole global da moda, das finanças e da economia criativa; de outro, Cortina d’Ampezzo, ícone...

Viver na Lua: o desafio humano além da tecnologia

Quando a missão Artemis finalmente pousar novamente na Lua, nos próximos anos, a imagem mais divulgada será, sem dúvida, a da bandeira fincada no solo cinzento, o símbolo do avanço tecnológico e da retomada da corrida espacial. No entanto, por trás dessa narrativa heroica, existe uma dimensão menos visível, porém decisiva: a experiência humana de viver em um território extremo, isolado e radicalmente hostil à vida. A Lua não é apenas um corpo celeste; ela se transforma, aos poucos, em um novo espaço geográfico de disputa, planejamento e ocupação. Assim como ocorreu com desertos, regiões polares e oceanos profundos na Terra, o desafio não é apenas chegar, mas permanecer. E permanecer exige mais do que foguetes potentes ou trajes sofisticados. Exige compreender o impacto do isolamento, da escassez e da convivência forçada em ambientes confinados. “O espaço é realmente desafiador”, afirma o astronauta da NASA Victor Glover. “É mais difícil do que parece, e não dizemos isso com frequênci...